SAUDADE E SAUDOSISMO
O
que é a "saudade" - uma palavra que é considerada como sendo uma
palavra tipicamente portuguesa? E o que é o saudosismo? Existe alguma
ligação entre uma e o outro?
A
palavra "saudade" deriva do latim (solitas/solitatem, ligado à solidão)
e ganhou um peso emocional muito próprio na cultura portuguesa,
sobretudo a partir da época dos Descobrimentos, associada à ausência, à
distância e à perda. A "saudade" não significa
apenas falta, nostalgia ou tristeza. Envolve simultaneamente a ausência
de alguém ou de algo, um afeto profundo, uma memória, um desejo de
reencontro e, muitas vezes, uma aceitação melancólica de que esse
reencontro pode não acontecer.
Não
existe uma palavra equivalente, direta e plena, noutras línguas. As
traduções aproximam-se, mas não abrangem todo o conceito:
* Inglês: longing, missing, nostalgia
* Francês: nostalgie, manque
* Espanhol: añoranza, nostalgia
* Alemão: Sehnsucht
Contudo, nenhuma destas palavras cobre, por si só, o mesmo conteúdo emocional e cultural da palavra portuguesa "saudade".
A
palavra também existe no português do Brasil, dos PALOP (Países
Africanos de Língua Oficial Portuguesa) e de Timor-Leste, mantendo o
mesmo significado básico. Em galego também existe a palavra "saudade",
com uma forte proximidade semântica, fruto da origem comum das duas
línguas (o galego-português medieval). Noutras línguas, a palavra é
usada sem tradução, como um lusismo cultural (por exemplo, em textos
acadêmicos ou literários).
Em
síntese: embora a experiência humana que a palavra descreve seja
universal, a forma como o português a condensou numa única palavra —
saudade — é distintivamente portuguesa.
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Por
outro lado, o saudosismo é, por assim dizer, uma "forma pervertida" da
saudade. Toda a forma de saudosismo parte da saudade, mas nem toda a
saudade conduz ao saudosismo. A saudade pode ser uma memória saudável e
humana; o saudosismo surge quando essa memória se transforma numa
fixação ou numa recusa da aceitação do presente. Em suma: a saudade é
sentir falta; o saudosismo é viver excessivamente voltado para o
passado.
Na
Bíblia, a "saudade" e o que hoje chamamos de "saudosismo" aparecem de
forma implícita, através de experiências humanas (de memória, desejo e
lamento) e de avaliações teológicas (memória redentora versus nostalgia
regressiva). A Escritura acolhe a saudade, mas adverte contra o
saudosismo quando este conduz à infidelidade ou à recusa do caminho de
Deus.
1. TEXTOS BÍBLICOS LIGADOS À SAUDADE (memória afetiva legítima)
A saudade bíblica é, em regra, relacional e esperançosa: sente-se a ausência, mas mantém-se a confiança.
a) Saudade da terra, do templo e da comunhão:
“Junto aos rios de Babilónia nos assentámos e chorámos, lembrando-nos de Sião.” (Salmo 137:1; ARC);
→ Esta é uma saudade dolorosa, mas identitária e fiel.
b) Saudade de pessoas amadas:
“Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1:8; ARA);
→ Esta é uma saudade como uma expressão de amor cristão.
c) Saudade que se transforma em esperança:
“E por isso, também, gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu.” (2 Coríntios 5:2; ARA);
→ Esta é uma saudade escatológica: não paralisa, mas orienta para o futuro de Deus.
2. TEXTOS BÍBLICOS LIGADOS AO SAUDOSISMO (nostalgia regressiva e crítica)
Aqui a memória do passado torna-se uma idealização distorcida, que gera murmuração, desobediência ou desejo de regressão.
a) Israel a idealizar o Egito (apesar da escravidão):
“Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça;" (Números 11:4-5; ARC);
→ Este é um saudosismo que ignora a opressão e rejeita a provisão divina.
“Quem nos dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR, na terra do Egito, ..." (Êxodo 16:3; ARA);
→ Este é um saudosismo paralisante, contrário ao espírito da libertação.
b) Advertência explícita contra o saudosismo:
"Nunca digas: ‘Porque foram os dias passados melhores do que estes?’ Pois não é sábio fazer tal pergunta.” (Eclesiastes 7:10);
→ Esta é uma crítica direta à idealização acrítica do passado.
c) O perigo de “olhar para trás”:
“E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.” (Lucas 9:62; ARC);
→ Este é um saudosismo que se apresenta como um obstáculo ao discipulado.
“Lembrai-vos da mulher de Ló.” (Lucas 17:32; ARA);
→ Este tipo de saudosismo é um apego regressivo ao que ficou para trás.
(NOTA:
Texto escrito, até aqui e com a exclusão do primeiro parágrafo, com o
apoio do ChatGPT, acedido no dia 1 de janeiro de 2026)
No
início deste novo ano civil de 2026, creio fazer sentido colocarmo-nos a
nós mesmos a seguinte questão: vivo eu com saudosismo de algum passado
que considero ter sido (muito) melhor do que o presente?
O seguinte texto bíblico, creio, ajuda-nos a perspetivar a realidade da forma correta:
"Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito." (Provérbios 4:18).
Reparem:
Se: "a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais";
Então: a minha/nossa "vereda" é mais, ou menos, brilhante, hoje, do que era ontem e no passado recente e sobretudo distante?
É mais brilhante! Então por que estamos, por vezes, tão concentrados no passado?!?
O
povo de Deus está, inexoravelmente, a seguir um caminho que conduz a
dias muitíssimo mais brilhantes - a vida eterna! Então, repito: que
benefício temos em concentrar-nos no passado?
Só existe uma "saudade" legítima ao nos recordarmos do passado:
"Passando
em revista a nossa história, percorrendo todos os passos do nosso
progresso até ao estado atual, posso dizer: “Louvado seja Deus!” Quando
vejo o que Deus tem executado, encho-me de admiração por Cristo, e de
confiança n'Ele como dirigente. Nada
temos a temer quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira pela
qual o Senhor nos tem guiado, e o Seu ensino na nossa história passada."
(EGW, Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 31).
Que encaremos este novo ano de 2026 e todo o tempo futuro que o SENHOR permitir que vivamos nesta Terra, com este sentimento legítimo a preencher a nossa mente e o nossso coração!
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